Quem o diz é o maestro: Dirigir uma orquestra é muito mais do que apenas estabelecer o ritmo, do outro lado estão pessoas!
Durante
anos, era comum pensar-se que uma das maiores responsabilidades de um
maestro era fazer com que uma peça soasse como foi imaginada.
Estudar a partitura, compreendê-la, construir uma interpretação e
ser capaz de transmiti-la aos músicos parecia resumir grande parte
do seu trabalho. No
entanto, ao longo do tempo, percebe-se que isso é apenas uma parte
dessa arte.
Quando
um maestro está diante de um naipe, de uma orquestra ou de uma banda
de música, não está apenas diante de instrumentos, mas também e
principalmente, de pessoas.
Indivíduos
que chegam ao ensaio depois de trabalhar, estudar, cuidar das suas
famílias ou enfrentar qualquer uma das circunstâncias que fazem
parte do seu quotidiano. Cada uma tem uma formação diferente, uma
sensibilidade própria, habilidades distintas e uma maneira
particular de se relacionar com a música.
Cabe
ao maestro garantir que toda essa diversidade encontre um
ponto de
encontro, uma linguagem comum e uma direção técnica e artística
partilhada e sobretudo que seja assimilada.
Claro
que precisamos de conhecimento, experiência, ouvido, capacidade de
julgamento e uma ideia musical claríssima. A pergunta artística é
inevitável e nunca devemos confundir a componente humana da direção
com uma atitude redutora, perante quem procura esclarecer uma dúvida
ou compreender a intenção de uma frase, de um determinado fragmento
musical ou, até mesmo, da essência da própria obra. Precisamente
porque aspiramos alcançar o melhor resultado possível, devemos
compreender que um grupo não responde apenas a um gesto correto ou a
uma indicação precisa. Necessita também de respeito, confiança,
motivação e do sentimento de que cada músico faz parte daquilo que
o maestro está a tentar explicar, para poder “construir a
pirâmide” melódica, harmónica e rítmica que seja do agrado de
todos os executantes e ouvintes.
Por
isso, continuo a considerar a direção musical uma arte que nunca é
totalmente aprendida. Cada grupo, cada peça e cada ensaio coloca o
“mestre” diante de diferentes pessoas e dificuldades, obrigando-o
a procurar novas respostas e a reinventar constantemente a sua forma
de comunicar, liderar e fazer música.
Apesar
da arte sónica poder ser dirigida com as mãos ou com uma batuta, os
músicos precisam de muito mais do que um gesto para fazerem música
em conjunto, daí ser meu dever deixar este meu
pensamento.
(Francisco M. Relva Pereira – Maestro e compositor)
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